quarta-feira, 30 de setembro de 2009

O socialismo acabou, viva!

Quando havia ainda a União das Repúblicas Soviéticas, um de seus "produtos de exportação" eram os feitos, obras e instituições de carater cultural.
Quem tem 40 anos, pelo menos, deve-se lembrar de certas peças tradicionais da programação de final de ano nas tvs brasileiras: diretamente importados da URSS, espetáculos do corpo de ballet do Teatro Bolshoi, da Orquestra Sinfônica de Moscou e do Côro do Exército Vermelho. Preenchendo horários menos disputados eram exibidas encenações da suíte Quebra Nozes, do Lago dos Cisnes, de Pedro e o Lobo. É das minhas memórias esta associação forte entre Natal & Kremlin.
Nestes dias, dei-me conta que, ao lado da "cultura herdada" vinda dos meus pais e avós, estes programas serviram de introdução para minha educação  musical.
Evoco esta lembrança para retomar o problema do acesso à cultura "elevada" ou "refinada", iniciada com a discussão sobre o belo e a periferia de São Paulo.
 De novo com a contribuição de conversas com estagiários, faço-me a pergunta: é possível ao jovem que não recebeu nenhuma "cultura herdada" dos antepassados, que vive na periferia, consumindo apenas o que a mídia industrial oferece no horário comercial, ter um legítimo e frutífero contato com o belo, com as criações mais eleboradas da cultural ocidental (suporemos que a oriental esteja fora de alcançe por definição)?
E mais a educação para o belo é exclusiva da juventude, sendo inivável na maturidade?
Outro elemento trazido a conversa pela valente equipe junior que aqui peleja foi o de caráter de classe desta cultura, destes bens culturais -  não na sua concepção ou execução, mas no seu consumo.
Na verdade, este elemento foi trazido involuntariamente à conversa no contexto de uma "defesa do direito à ignorância".
Foi só ao ser confrontado, através de uma analogia sobre o "preconceito" popular contra a Usp, designado como espaço de burgueses e playboys, é que ele aflorou na discussão na posição correta, não como argumento, mas como dado da realidade:
A mesma rejeição que certos setores populares devotam à Universidade Pública, é dirigida à música clássica ocidental, à música instrumental. Uma constrói a barreira final (entre tantas) ao acesso à Universidade Pública exatamente pelo público que mais dela tiraria proveito, a outra mantém afastados de uma enorme gama de produtos e bens culturais (com perdão da linguagem "comercial"), justamente aqueles que muito podiam aproveitá-la para a tarefa de libertação, nem digo social, mas libertação pessoal, que entendo ser uma das razões para as quais existimos.
Faz 20 anos a URSS acabou. Esta programação natalina sumiu. Cresceram as comemorações na av. Paulista, a queima de fogos em Copacabana, o especiais da Daniela Mercury, da Ivete Sangalo e do "rei" RR. Substituiram o romatismo (que já foi chamado de popularesco) das obras de Tchaikovsky.
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Ao fim da discussão, tive de ouvir a pergunta sobre se a "Carminha" Burana era uma mulher bonita...isto de uma universitário! O mesmo, aliás, que defende com unhas e dentes o punk do Colera, do Clash, do Rancid e das incríveis meninas do "Menstruação Anárquika"
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Hoje em dia a Rede Vida, católica, no máximo nos oferece um quarteto de cordas da UFPR e o sensacional André Rieu.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O exílio de Érato: poética versus literalidade, um estudo do uso de "dois pontos" nos títulos de trabalhos acadêmicos

Tá certo, é mera provocação. Mas admitirá, meu fidelíssimo leitor, ao final desta leitura que ou brincam demais com metatexto ou o chá da tarde anda tisnado por susbtâncias alternativas em alguns departamentos de Humanas de universidades por aí.
Por causa de amizades - ahhh como as mães nos advertem, em vão, sobre esta classe de relacionamentos! - destas amizades que nos inundam o facebook com links diversos, dia destes deparei-me com o site do NAU/USP, que me inspira no momento para este post. Clicou? Checou o link "artigos"?
Que há nas pessoas, que batizam assim seus textos científicos?
"Cidade universitária: patrimônio e identidade" e uns 12 outros artigos possuem orações coordenadas assindéticas ou vocativos separados por ":" ou por um mais tímido "-"
Para quê?
Saberemos melhor identificar o assunto tratado, por estar estar anunciado assim? Ou se trata de um abstract do abstract, colocado logo ali, na capa, para que nossa preguiça não se aborreça em virar uma página para descobrir do que trata o texto?
Antes que alguém, tendo isto como ilustração ou argumento, já critique os nacionais por criar o vício tolo, é justo esclarecer que a moda é antiga e vem de outros mares - afinal não inventamos a Antropologia!
olha só!
aqui tb!

Tendo a apoiar a segunda explicação. O metatexto é oferecido à preguiça subliminarmente atribuída aos leitores. E aduzo argumento totalmente fora de contexto, para assim paralizar meu virtual oponente retórico, vencendo a questão por paralisia facial e mudez: assistindo ao tv show da gostosa bolacha Ellen DeGeneres, gravei o exemplo que ela propôs para tese de que os americanos estão ficando preguiçosos demais - a bala em pó efervescente!
Ao perguntar "can't we even suck properly anymore?!", colocou uma chave de ouro, "a great punch line", em sua observação do cotidiano.
Será a preguiça um mal universal desta geração, será o nosso "mal du siècle?"

Será que nós, aqui, estamos preguiçosos a ponto de não viramos uma página ou abrirmos um link, se não houver o tal "abstract do abstract"?

Verermos nossos filhos consultando...
O capital: trabalho alheio não-pago, centralização de capitais e financeirização da produção de bens.
Totem e tabu: o sagrado e o proibido na infância da civilização.
1984: amormedo e covarderebelião numa sociedade totalitária.
Dom Casmurro:  desvãos do amor e de uma amizade incerta no Rio de Janeiro de Pedro II.
?

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

O belo, a periferia e a estátua perenal

Uma das vantagens intangíveis ( ou nem tanto) da minha posição profissional é ter, à disposição da minha inclinação sádica no campo intelêquitual, seres sub-humanos expostos ao trabalho extenuante, sem sentido ou relevância, conhecidos nos escaninhos das áreas de RH como "estagiários".
Pois segue que, nestas tardes quase primaveris de setembro, é-me concedida a graça de torturá-los, sob o pretexto de educá-los com preleções sobre temas diversos. Hoje tivemos ilustrada a questão da natureza do belo, de seu fundamento talvez natural, inato, e de seu desenvolvimento condicionado por limitantes e vetores sociais, pessoais, afetivos etc.
Apresentou-me um dos seres mencionados como ingrediente de discussão, música  feita pelo movimento punk inglês e americano.
Siga, leitor, os videos e músicas pelo universal iutube ou pelas caboclas rádios online, ligados aos nomes "Dead kennedys", "NoFx", "Rancid".
Como se define o belo universal? Como se define aquela sensação subjetiva de estar diante do verdadeiro (eureka!), do belo, do justo?
Pode se falar nela ouvindo isto?
Maxwell murder
Pelo estagiário, foi aduzido o argumento "social" sobre a rebeldia à disposição da juventude da periferia, "sem acesso à cultura formal", como forma de explicar a preferência, ou mais exatamente, o consumo exclusivo de tais produtos culturais.
Ad limine, a mera menção da existência do botão "dial" em todos os radinhos de pilha e aparelhos de som em geral indicou que o acesso ao clássico, ao jazz, ao instrumental brasileiro, ao samba, choro, polca, valsa etc, etc não é exatamente tão difícil e serviu para fazê-lo desistir desta linha de pensamento, ao menos ali, no calor da rêfrega.
Mas, eu mesmo "nunca tendo acesso" aos produtos culturais acima mencionados, cumpri nesta noite a tarefa de honestidade intelêquitual e ouvi de tudo isto e "see all videos" related...
Nenhuma experiência relevante se esgota em tão poucas horas de observação, mas confesso que tive de me  refugiar em algo muuuito diferente...
Lábios que beijei
ou mesmo isto...
Lábios que beijei (Caetano)

"Compadecei-vos de meus ais"
"Volta, dá lenitivo a minha dor"

Já foi música popular...e continua belo.

Belluzzo

A eleição do atual presidente do Palmeiras foi saudada, fora do clube especialmente, como uma espécie de novo advento, uma oportunidade de renovação da gestão do futebol profissional.
Boas e novas práticas vem sendo adotadas pela adm do clube, que tb está oferecendo uma atenção especial a sua área social.
Destacarei aqui um assunto, dentre tantos que estão na pauta do atual presidente: a sua visão da chamada "profissionalização do futebol".
Em geral, os que falam nesta assim designam apenas um abandono de uma criticada "emocionalidade"  em favor de uma "racionalidade" ou "visão do bísnês futebol" (como diria uma dos inúmeros e refinadíssimos delegados da polícia civil de SP que fazem parte da direção do sccp).
Na imprensa esportiva, o cenário é mais simplista ainda: trata-se de conviver alegremente com os chamados "empresários" da bola...há os que sinceramente acham que o fato de fulano A passar a poder investir em direitos federativos de atletas (com o fim da lei do passe) tenha sido um grande passo na "libertação" do jogador de futebol.
O presidente da Sep, por sua vez, tem levado a discussão para o campo dos problemas da gestão conjunta dos negócios - de uma certa maneira retomando a idéia de uma liga dos clubes brasileiros, algo que deu seus primeiros passos na década 80 do século passado.
De lá para cá, no meio do caminho, apareceu  a chamada lei dos bingos, quer dizer, lei Zico, que dizer, lei Pelé e a criação da liga, a gestão integrada dos interesses de todos os clubes da série A ficou relegada a segundo plano, enquanto assistimos a "invasão de nossa praia" pelos "empresários" e "investidores".
Na ânsia pela, sejamos bondosos, "inovação gerencial", até presidente de clube grande de sp foi flagrado em "tenebrosas transações" envolvendo os ditos "empresários" e farta distribuição de comissões nas transações de direitos de atletas.
A se dar crédito a algumas notas da imprensa, a própria Fifa tem estudado e está gestando medidas de controle do mercado, tendo em vista uma gestão de fato mais profissional e um planejamento do "negócio futebol" com um enfoque mais estratégico.
Belluzzo tem citado o exemplo da NBA nas entevistas que deu recentemente e, quem já teve oportunidade de ler sobre a organização da liga americana de basquete, sabe que estamos falando de grande centralização administrativa, grande intervenção nos contratos entre clubes, técnicos e jogadores, grande regulação e padronização de todos os aspectos comerciais da organização e venda de direitos dos campeonatos. Enfim, uma direção radicalmente contrária ao que predominou nos últimos 15 ou 20 anos no Brasil, no que diz respeito à discussão sobre os rumos do futebol nacional.
 Será que o presidente Belluzzo está iniciando uma contestação do clima politicamente predominante dos anos 90 (privatizações + crença em certas inexorabilidades econômicas e mesmo comerciais + dissolução/enfraquecimento das instâncias coletivas de ação pública + controle monolítico do orçamento público por uma fração da classe dominante brasileira), agora no campo futebol?
Temos visto que, ao mesmo tempo em que promove este debate e nesta direção precisa, o presidente tem ido aos jogos, tem viajado com o time e frequentado (literalmente) as arquibancadas. Tem conversado com presidentes de outros clubes e, sempre que possível, tentado vencer os obstáculos e desmontar resistências em relação à colaboração entre os clubes. O que isto significa?
Quer o presidente dar um conteúdo nacional a este movimento de organização?
Quer uma modernização orientada segundo os interesses dos agentes e atores nacionais?
Seria a boa nova tão profunda assim?


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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Montfort

Há tanto tempo acompanho o trabalho na internet feito por Orlando Fedeli e seus colaboradores, que nem me lembro mais como cheguei ao site da Associação.
É uma das leituras preferidas das minhas manhãs.
O que há lá, que possa ser aqui adiantado (já que vc, leitor não resistirá a tentação de dar um click no link)?
O professor Fedeli é um dos representantes mais antigos na web católica tradicional. Se por via de exceção ou não, o fato é que é um site "antigo" e bom!
Aprecio a leitura das polêmicas com protestantes (em grande número), a discussão com carismáticos católicos e a explanação da doutrina católica, com auxílio do catecismo romano, dos dogmas anunciados pelos papas do passado e pela atividade pastoral do atual sumo pontífice.
Para quem frequenta este círculo de sites (católicos, protestantes, carismáticos), o da Montfort se destaca pela farta oferta de textos e documentos oficiais e pela franqueza na discussão dos argumentos dos leitores.
Sendo ateu, minha palavra de apoio certamente não será levada em consideração pelos detentores do site. Mas deixo clara minha concordância com os diagnósticos apresentados sobre a situação atual do catolicismo, do estado da fé entre os católicos brasileiros e com a avaliação feita sobre o protestantismo, em que pese minha "ignorância vencível" sobre o assunto.
A última polêmica em destaque no site é a contenda com os padres aglutinados no blog da Canção Nova, especialmente os inacreditáveis Joãozinho e Fábio Melo.
Este último, aliás, esteve impagável no programa cabeça da Marília Gabriela na TV a cabo...botox, musculação, maquiagem!
Documentos da Igreja em português e espanhol, notícias da Cúria romana e links para sites tradicionais de outros países completam os recursos oferecidos.
Vale o click!

Ahhhh, os links...

Houve um tempo em que a intenet eram três cliques e um texto. Se havia algum percurso a ser cumprido na "infovia do conhecimento" era bem curto: do email do teu colega no mestrado até o link da biblioteca de textos da Universidade do Texas era um pulinho. No meio, o vazio. Nem blogs havia!
Agora há tantos links e páginas, que uma das áreas que mais se desenvolvem é a de compartilhamento, catalogação e distribuição de dicas de "sites legais".
Bovinamente, acompanharei meus pares comentando e indicando os tais "sites legais".
De tudo um pouco, aos poucos. No capítulo de hj a Monfort.

Cansa mesmo?

Leitor assíduo de diversas fontes no "oceano de informações da internet", volta e meia me deparo com o cansaço de alguns em manter aberta uma brecha pessoal na muralha corporativa da rede (obrigado google!).
Será? Provarei esta conclusão de tantos a partir de agora.
Este blog manterá uma linha editorial rígida e bem definida: falarei sobre o que estiver lendo no momento, criarei links para os amici, mas tb para os inimigos, aproveitarei ao máximo a criação de outros - porque senão seria apenas uma ego-trip - e sempre quebrarei o pau com todos os leitores que assim o desejarem.
Tendo escovado minha ignorância nos bancos da faculdade no curso de História, será normal, vez por outra, vazar algum texto com cacoetes aprendidos lá. Prometo que não será a regra.
Alia jacta est!